Bio

 

Retrato de ousadia e elegância

A primeira obra de Roberto Moreno é uma ousadia. Iniciado musicalmente nos pagodes da família em Anchieta e graduado nas rodas do Bip-bip em Copacabana, Moreno se firmou nos últimos anos como um dos mais autênticos cavaquinistas dos sambas que embalam a noite carioca. Agora, ele opta por dar a seu trabalho de estreia uma erudição instrumental que faz de Retrato um desafio ao senso comum.

O cavaquinista e intérprete decidiu fugir do padronizado sistema violão-cavaco-pandeiro-percussão e cedeu a frente do palco ora ao piano, ora ao contrabaixo acústico ou à sanfona – deixando os instrumentos inerentes ao samba como guardiães recatados da grandeza de suas composições.

O resultado é uma obra original e elegante, com uma riqueza harmônica atípica em tempos de produção industrial na música. Retrato se torna, nesse cenário, um verdadeiro oásis.

O encontro das influências sambísticas das zonas Norte e Sul do Rio de Janeiro, no entanto, não explicam este álbum. Retrato é fruto de uma trajetória mais complexa. Trata-se do resultado de uma vivência de quatro anos na França, onde o samba se misturava ao jazz e à música africana, e de uma densa imersão musical em Cabo Verde. Foi um dia após deixar a terra da cantora Mayra Andrade que Moreno compôs sua primeira música, “Coração Transparente”.

O trabalho autoral de estreia de Roberto Moreno como compositor foi presenteado pela generosidade de Wilson Moreira – mestre e, agora, também parceiro do cavaquinista. Em “Canoeiro”, Moreira, do alto de seus 80 anos recém-completados, empresta sua história e dá bênção à canção de Moreno e Sérgio Gramático Jr, na gravação que pode ser considerada a credencial definitiva para afirmarmos que Retrato não se trata de uma obra qualquer.

Paulo Celso Pereira, jornalista